Era meu primeiro aniversário sendo celebrado na Universidade de Sorocaba, onde eu tinha acabado de começar a lecionar. E depois de um parabéns e bolo surpresa, alguém puxou a pergunta clássica no meio do barulho: “Quantos anos você está fazendo?”
Respondi sem pensar muito: “Boa pergunta. Eu tenho 30 e poucos anos.
Alguém com um sorriso maldoso, questionou: “trinta e pouco?”
Naquele momento, eu ainda não sabia, mas aquela brincadeira tinha muito a ver com a síndrome de Peter Pan que, de certa maneira, habita em mim. Não pelo desejo de permanecer jovem para sempre, mas pelo medo de deixar de compreender o mundo à minha volta.
Ao que logo respondi: “Sim. Fiz 34, 35, 36, 37, 38, 39. Agora estou fazendo 30 e 10.”
Depois do riso generalizado, acharam que era só mais uma piada ruim para disfarçar o peso da idade. Mas aquela resposta dizia muito mais sobre mim do que eu imaginava.
Nunca tive medo de rugas. Nunca me preocupei muito com cabelos brancos surgindo nas têmporas ou com as marcas de expressão no canto dos olhos. A vaidade estética nunca foi uma questão. O medo verdadeiro sempre foi outro, silencioso e muito mais profundo.
O medo de ver o mundo avançar e eu ficar para trás. O pavor de um dia olhar para a sociedade e não conseguir mais interpretar o que vejo. Sentir-me desconectado. Sem repertório. Incapaz de conversar com quem está chegando agora.
Leva tempo até a gente conseguir olhar para o próprio passado e enxergar as linhas invisíveis que conectam escolhas aparentemente desconexas.
Trabalhei anos liderando grupos de adolescentes e jovens na igreja. Anos depois, criei uma startup desenhada especificamente para atender estudantes universitários. Quando decidi fazer um mestrado, o tema não podia ser outro: a entrada de jovens profissionais no mercado. No doutorado, voltei os olhos novamente para os universitários. Veio a docência. Vieram os laboratórios de inovação.
Olhando de fora, parecia apenas a construção de uma carreira. Mas hoje sei que não era. Era uma busca desesperada por permanência. Eu estava, sem saber, tentando garantir meu passaporte para continuar dialogando com o tempo presente.
A ficha caiu
Há alguns anos, no meio de uma aula, soltei uma expressão banal para a minha geração.
“Acho que finalmente caiu a ficha.”
Gesticulei com as mãos enquanto falava simulando um telefone de gancho. Olhei para a turma. Eles entenderam o sentido da frase. A linguagem é esperta, ela sobrevive mesmo quando perde o corpo. Mas percebi um brilho estranho nos olhos daqueles jovens de vinte anos.
“Vocês sabem de onde vem essa expressão?”, perguntei.
Um silêncio absoluto tomou conta da sala. Ninguém tinha a menor ideia.
Busquei na internet do laptop uma imagem de um orelhão e projetei no telão da sala de aula. Expliquei o peso de uma ficha de metal na palma da mão. Expliquei o barulho característico do ferro descendo pelo mecanismo, o pequeno solavanco mecânico que indicava que o tempo de ligação estava acabando e que precisava inserir novas fichas se quisesse continuar falando com a pessoa do outro lado da linha.
Eles me olhavam como se eu estivesse narrando uma expedição arqueológica.
Naquele segundo, um estalo percorreu minha espinha. Não era só saudosismo. Era a constatação física de que eu trazia comigo a memória de um mundo analógico que eles jamais conheceriam. Mas o oposto também era verdadeiro. Aqueles alunos viveriam, habitariam e construiriam um mundo digital que eu nunca habitarei por completo.
A minha geração precisou aprender o código da tecnologia como quem aprende uma segunda língua na idade adulta, com sotaque carregado e tropeços na gramática. Eles nasceram fluentes.
A princípio, achei que minha missão seria sempre essa: tentar entender a juventude para não envelhecer por dentro. Até que uma viagem recente ao interior de Minas Gerais ajudou a mudar minha percepção.
Fui visitar uma tia. Oitenta e cinco anos. Uma vida inteira construída no ritmo calmo da roça, do café passado no coador de pano e do relógio de parede que marca as horas sem pressa. Sentei ao lado dela na varanda. Em questão de minutos, notei seus dedos deslizando pela tela de um smartphone. Ela navegava por redes sociais, assistia a vídeos curtos e reagia a notificações automáticas produzidas por algoritmos a milhares de quilômetros dali.
Aquela cena desarmou uma tese que eu carregava há anos.
A transformação tecnológica não é um fenômeno de faixa etária. Não pertence só aos universitários que sentam nas minhas fileiras de carteiras, nem aos jovens profissionais que entram no mercado achando que sabem tudo. O algoritmo não pede certidão de nascimento. A Inteligência Artificial não escolhe idade para reconfigurar a forma como consumimos, votamos, nos informamos, nos comunicamos e sentimos afeto.
A minha tia de oitenta e cinco anos e o meu aluno de vinte estão expostos à mesma arquitetura invisível que molda a opinião pública e reescreve as regras da atenção humana.
Percebi que a inquietação que me acompanhou a vida toda não era apenas uma tentativa ingênua de me manter jovem. Era algo maior. Era a intuição de que a única forma de não nos tornarmos irrelevantes diante das mudanças do mundo é recusar a acomodação.
A Síndrome de Peter Pan
De repente, a Síndrome de Peter Pan ganhou outra dimensão. Nunca foi sobre recusar o amadurecimento. Nunca foi sobre vestir roupas infantis ou tentar usar as gírias da moda para parecer aceito por uma turma de dezoito anos. Sempre foi sobre a recusa em perder o espanto.
Quando paramos de perguntar como as coisas funcionam, começamos a envelhecer de verdade. O corpo muda, a pele muda, as datas no calendário acumulam. Mas o envelhecimento definitivo acontece no dia em que olhamos para uma nova tecnologia, para uma nova forma de comunicação ou para um novo comportamento social e dizemos: “No meu tempo era melhor”, ou simplesmente “Isso não é para mim”.
Nesse dia, a ficha deixa de cair.
Um espaço para falar sobre tecnologia sem complicação
Talvez seja por isso que decidi construir este espaço.
Depois de anos circulando entre salas de aula universulárias, laboratórios de inovação, reuniões de negócios e pesquisas acadêmicas, percebi que o conhecimento acumulado não serve para quase nada se ficar restrito aos muros das faculdades ou aos relatórios corporativos.
Não pretendo escrever aqui para ensinar computação, apresentar manuais de ferramentas ou publicar análises frias de mercado. Este canto existe para contar histórias. Para compartilhar os bastidores de um laboratório, as perguntas inesperadas que surgem nas aulas, as observações feitas em um saguão de aeroporto, o café tomado com um empresário preocupado com o futuro da sua empresa ou a conversa despretensiosa com uma idosa no interior de Minas.
Quero usar o cotidiano como janela para investigar o que a Inteligência Artificial e os algoritmos estão fazendo conosco. Com nosso trabalho, nossas famílias, nossos negócios, nossos filhos e a maneira como enxergamos a nós mesmos.

No fundo, este espaço é um convite para fazermos esse percurso juntos. Sem jargões difíceis. Sem promessas milagrosas. Apenas com a curiosidade de quem se recusa a aceitar o mundo sem tentar compreendê-lo primeiro.
Olhando para trás, vejo que aquela resposta dada na mesa de aniversário não era uma fuga da realidade. Era apenas o reconhecimento de um pacto silencioso que fiz comigo mesmo há muito tempo.
Fiz 30. Depois fiz 31, 32, 35, 39. Hoje faço 30 e 10.
A contagem do tempo continua exata e inevitável. Mas o olhar que lanço para o mundo recusa o peso do cansaço. Porque o medo de envelhecer nunca foi sobre o corpo que muda, mas sobre a mente que se fecha. E a curiosidade, no fim das contas, talvez seja a única forma elegante que encontrarmos para permanecer vivos.



