O que é opinião algorítmica?

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Você já deve ter vivido alguma experiência em que, depois de pesquisar alguma coisa na internet, parece que a internet inteira passou a falar daquele assunto. No meu caso, basta pesquisar tênis masculino para corrida para começar a receber uma quantidade impressionante de conteúdos, ofertas e recomendações sobre tênis. Talvez você tenha passado pela mesma coisa depois de procurar uma passagem de avião, assistir a dois filmes sobre determinado assunto ou pesquisar um produto que estava pensando em comprar.

É fácil pensar, num primeiro momento, que seja coincidência. Mas, se você é um leitor atento do nosso tempo, provavelmente já sabe que não é. Existe um sistema trabalhando silenciosamente para decidir o que aparece diante de nós, o que volta a aparecer e o que praticamente desaparece. E, claro, existe uma razão econômica para isso: quanto mais tempo permanecemos em uma plataforma, mais ela aprende sobre nossos comportamentos, mais consegue prever aquilo que pode nos interessar e mais eficiente pode ser na oferta de publicidade e produtos.

Só que existe uma questão muito maior escondida nessa experiência aparentemente banal. O algoritmo não está apenas tentando descobrir qual tênis você quer comprar. Ele também está ajudando a selecionar quais partes do mundo chegam até você.

Foi pensando nessa transformação — na influência dos algoritmos sobre a nossa experiência cotidiana, sobre o comportamento e, principalmente, sobre a maneira como construímos nossas percepções sobre o mundo — que comecei a desenvolver minhas pesquisas. A questão que me interessava não era simplesmente entender por que determinado anúncio aparecia no meu celular. Era compreender o que acontece quando a mesma lógica de seleção algorítmica passa a organizar uma parcela cada vez maior das informações que recebemos.

Como os algoritmos começaram a organizar o nosso mundo

Há mais de cem anos, o jornalista americano Walter Lippmann já havia percebido um problema que continua absolutamente atual: nós não conseguimos conhecer diretamente o mundo em que vivemos.

Parece uma constatação óbvia, mas pense um pouco nela. Por mais curioso, informado e interessado que eu seja, não consigo saber nem o que está acontecendo neste momento na casa do meu vizinho. Imagine então o que acontece em uma cidade a centenas de quilômetros daqui. Ou em outro país. Ou do outro lado do planeta.

Nossa experiência direta simplesmente não dá conta do mundo.

Lippmann chamou atenção para aquilo que ficou conhecido como pseudoambiente: a imagem da realidade que construímos a partir das informações que chegam até nós. Para conhecer acontecimentos que não presenciamos, dependemos de algum tipo de mediação.

Durante boa parte do século XX, essa mediação passou principalmente pelos jornais, revistas, rádio e televisão. Havia pessoas selecionando acontecimentos, jornalistas fazendo apurações, editores escolhendo manchetes e empresas de comunicação decidindo o que merecia espaço. A imprensa fazia um recorte da realidade e nos entregava uma espécie de janela para um mundo que não conseguiríamos conhecer diretamente.

No contexto brasileiro

Eu gosto de imaginar como isso funcionava dentro de uma família brasileira algumas décadas atrás.

Pai, mãe, filhos. Todo mundo sentado diante da televisão. Em determinado horário, todos assistiam ao mesmo telejornal. É claro que aquele jornal não mostrava tudo. Impossível. Afinal, havia uma seleção. Havia critérios editoriais, interesses e também havia escolhas.

Mas existia uma característica importante: muitas pessoas recebiam aproximadamente o mesmo recorte da realidade.

Hoje, essa experiência mudou completamente.

Quando abrimos o celular, o mundo que aparece para mim não é necessariamente o mesmo mundo que aparece para você. E não estou falando apenas das pessoas que seguimos. Estou falando da própria arquitetura das plataformas, que aprende com nosso comportamento e reorganiza continuamente os conteúdos aos quais somos expostos.

A mediação continua existindo. Só que agora ela também é algorítmica.

Exercício mental da opinião algorítimica

Eu costumo fazer esse exercício mental — e ele será, inclusive, o primeiro capítulo do livro que estou escrevendo sobre Opinião Algorítimica.

O que você pensa sobre Donald Trump?

Você provavelmente tem uma opinião.

Pode gostar dele. Pode detestá-lo. Ou pode considerá-lo um grande político ou um péssimo político. Inclusive, pode concordar com algumas de suas posições e discordar de outras. Mas é muito provável que você tenha alguma opinião formada sobre Donald Trump.

Agora pense em outra liderança política internacional.

O que você pensa sobre o presidente da França?

Ou sobre o primeiro-ministro do Reino Unido?

Provavelmente uma parcela muito menor dos brasileiros conseguiria responder imediatamente. E não é porque essas pessoas sejam necessariamente menos importantes para o mundo. É porque elas ocupam um espaço muito diferente no nosso ambiente informacional.

Aprendizado de máquina para a formação da opinião algorítimica

Donald Trump produz notícia. Isto é, produz conflito, indignação, apoio, produz memes. Produz comentários. O que resulta em compartilhamentos e engajamento.

E o algoritmo aprende isso.

Ele não precisa gostar de Donald Trump. Não precisa ser republicano ou democrata. Não precisa sequer compreender política como nós compreendemos.

Ele precisa identificar que determinados conteúdos sobre Donald Trump têm alta probabilidade de fazer com que alguém pare, leia, assista, comente ou compartilhe.

É aí que a coisa começa a ficar interessante.

Quando uma plataforma aprende aquilo que prende a nossa atenção, ela passa a ter condições de nos oferecer mais daquilo. E quanto mais oferece, mais aprende. É um ciclo.

O problema é que essa lógica não se aplica somente ao que queremos comprar.

Ela também pode determinar aquilo sobre o que temos mais contato.

Aquilo que aparece repetidamente diante de nós começa a ocupar espaço na nossa percepção. Aquilo que nunca aparece pode simplesmente deixar de fazer parte do nosso repertório.

Não significa que o algoritmo determine sozinho a nossa opinião. A questão é anterior a isso.

Ele ajuda a organizar o ambiente no qual a nossa opinião será formada.

E essa diferença é fundamental.

Na minha pesquisa, é justamente essa transformação que me interessa: os algoritmos deixaram de ser apenas ferramentas utilizadas para distribuir informações e passaram a participar da própria organização da visibilidade. Ao hierarquizar conteúdos segundo padrões de engajamento, personalização e comportamento, as plataformas interferem nas condições em que diferentes perspectivas chegam até nós.

Minha pesquisa sobre Opinião Algorítmica

Foi a partir dessas perguntas que cheguei ao doutorado em Ciências da Comunicação na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

Minha tese recebeu o título “Opinião algorítmica: a mediação da Inteligência Artificial na opinião de jovens universitários”. A pesquisa procurou compreender como os jovens se relacionam com essa nova forma de mediação e como os sistemas algorítmicos participam da formação de suas percepções e posicionamentos.

Uma das coisas que mais me interessavam era justamente aquilo que eu conseguia observar na sala de aula.

Eu tenho alunos que passam muitas horas por dia nesses ambientes. Alguns chegam a relatar jornadas de uso que se aproximam de dez, onze, doze horas — em alguns casos, ainda mais. O celular está presente quando acordam, no caminho para a universidade, durante os intervalos, no trabalho, em casa e antes de dormir.

Exercício de opinião algorítmica

Então eu comecei a fazer um exercício muito simples.

“Abre o seu Instagram.”

“Agora abre o Explorar.”

“Mostra para o colega do lado.”

Depois:

“Abre o TikTok.”

“Mostra o Para Você.”

E aí vem uma das partes mais interessantes.

Um aluno mostra futebol. Outro mostra maquiagem. Outro mostra academia. Já outro recebe vídeos de humor. Outro recebe política. Outro recebe música. As propagandas também são diferentes.

Não estamos diante de uma televisão transmitindo o mesmo programa para todo mundo.

Estamos diante de milhares de pequenas televisões particulares, funcionando simultaneamente, aprendendo continuamente com quem está do outro lado da tela.

A pesquisa empírica que desenvolvi no doutorado envolveu 1.306 estudantes de 17 instituições de ensino superior do estado de São Paulo. Os resultados ajudaram a mostrar que os próprios usuários percebem essa personalização. Eles reconhecem que os conteúdos recebidos estão relacionados aos seus interesses e comportamentos e também relatam que aquilo que consomem nas redes pode influenciar suas opiniões.

Contradição da opinião algorítimica

Mas existe uma contradição que considero especialmente interessante.

Nós sabemos que os algoritmos estão trabalhando.

Sabemos que as plataformas aprendem com nosso comportamento.

Sabemos que o conteúdo é personalizado.

Também sabemos que existe uma lógica comercial por trás disso.

E continuamos usando.

Continuamos rolando a tela, assistindo ao próximo vídeo, clicando e continuamos voltando.

Cinismo esclarecido na opinião algorítimica

Na pesquisa, essa condição apareceu associada ao que denominei “cinismo esclarecido”: uma espécie de consciência sobre a mediação algorítmica que convive com uma dificuldade prática de escapar dela. Sabemos que existe uma estrutura nos influenciando, mas estamos profundamente integrados a ela.

E talvez seja justamente aí que esteja o problema mais interessante.

Não estamos falando apenas de consumo.

Estamos falando daquilo que sabemos.

Daquilo que desconhecemos.

Das pessoas sobre as quais formamos opiniões.

Dos acontecimentos que consideramos importantes.

Dos assuntos que passam a fazer parte das nossas conversas.

Das coisas que deixamos de perceber.

A Opinião Algorítmica nasce dessa inquietação.

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O conceito que desenvolvi na tese procura compreender uma sociedade em que a formação da opinião acontece em um ambiente no qual sistemas automatizados participam da seleção e da hierarquização daquilo que se torna visível. Não é a substituição da opinião pública pela máquina. É uma transformação das condições em que a opinião pública se forma.

E essa talvez seja a pergunta que eu gostaria de deixar para você:

Se os algoritmos ajudam a escolher os pedaços do mundo que chegam até nós, quanto da nossa visão de mundo é resultado daquilo que escolhemos — e quanto é resultado daquilo que foi escolhido para nós?

Essa pergunta está no centro da minha pesquisa.

E, sinceramente, acho que estamos apenas começando a descobrir a resposta.

Emilio Alves DON

Este texto faz parte da pesquisa sobre Opinião Algorítmica, conceito desenvolvido em minha tese de doutorado na ECA-USP. A pesquisa continua sendo desdobrada em novos estudos sobre a relação entre algoritmos, comportamento, informação e formação da opinião. 

Conheça a pesquisa, a tese e seus desdobramentos em Opinião Algorítmica.

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Emilio Alves DON

Emilio Alves DON é professor universitário, pesquisador e empreendedor dedicado a compreender como a Inteligência Artificial e os algoritmos estão transformando a sociedade, os negócios e a formação das próximas gerações.

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