Blindagem reputacional algorítmica

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Há cerca de três meses, um amigo muito próximo me ligou e fez um pedido bastante simples: “Dá um Google no nome de uma pessoa para mim?”

Digitei o nome.

E apareceu uma história.

O nome estava associado, em vários dos principais portais de notícias do país, a uma prisão. Havia notícias sobre um episódio criminal ocorrido muitos anos antes. Confesso que minha primeira reação foi de surpresa. “Quem é essa pessoa?”, perguntei.

A resposta me surpreendeu ainda mais: era alguém que meu amigo conhecia pessoalmente e que precisava de ajuda.

Essa pessoa havia passado por um problema com a Justiça cerca de dez anos antes. Segundo ela, era inocente das acusações, mas havia sido presa, passado um período na prisão e, posteriormente, resolvido suas pendências com a Justiça. A vida continuou. A pessoa voltou aos negócios, construiu uma trajetória empresarial importante e seguiu trabalhando.

Havia apenas um problema.

A internet não tinha seguido em frente.

Quando alguém pesquisava seu nome, uma parte específica daquela história continuava aparecendo. E, para quem não conhecia sua trajetória, aquela era praticamente a única história disponível.

Reputação digital

Existe uma coisa curiosa sobre a nossa reputação: nós sabemos muito mais sobre nós mesmos do que a internet sabe.

Eu sei onde estudei. Sei das empresas pelas quais passei. Sei das pessoas que ajudei. Sei dos projetos que construí. Sei das dificuldades que enfrentei e das coisas que consegui realizar.

Mas quando alguém que não me conhece digita meu nome no Google, essa pessoa não recebe a minha memória.

Ela recebe os registros que existem sobre mim, a opinião algorítmica.

E essa diferença é enorme.

No caso daquela pessoa que meu amigo me apresentou, havia uma história empresarial de muitos anos, conquistas, projetos, competências e relações profissionais. Mas quase nada disso estava devidamente registrado na internet.

O episódio judicial estava.

O restante da história, praticamente não.

Isso me fez pensar em quantas pessoas vivem exatamente essa situação sem sequer perceber.

Você pode ser um excelente executivo, um empresário brilhante, um professor respeitado, um pesquisador competente. Pode ter construído uma carreira inteira.

Mas, se ninguém registrou essa trajetória em lugares que os mecanismos de busca conseguem encontrar, ela pode simplesmente não existir para quem está pesquisando você pela primeira vez.

E isso é particularmente importante porque a reputação digital não começa quando alguém conhece você. Ela começa quando alguém pesquisa você.

Reputação algorítmica

Há uma pergunta que comecei a fazer depois dessa experiência.

Se eu não conhecesse você e digitasse seu nome no Google hoje, o que eu descobriria?

E tem uma segunda pergunta, talvez ainda mais interessante:

Se eu perguntasse ao ChatGPT, como um usuário qualquer, “quem é essa pessoa?”, que história seria contada sobre você?

Essas duas experiências podem produzir respostas muito diferentes daquilo que você gostaria que alguém soubesse.

E isso acontece porque buscadores e sistemas de Inteligência Artificial não conhecem a nossa vida. Eles conhecem aquilo que conseguem encontrar sobre ela.

É aí que entra o que estou chamando de reputação algorítmica: a representação que mecanismos de busca e sistemas de inteligência artificial conseguem construir sobre uma pessoa ou uma empresa a partir das informações disponíveis.

Não se trata de dizer que essa representação é necessariamente verdadeira ou falsa. Trata-se de perceber que ela é incompleta.

No caso que me foi apresentado, bastava fazer uma busca para encontrar a prisão.

Mas onde estavam os dez anos seguintes?

Onde estavam os negócios construídos?

Onde estavam as conquistas?

Onde estavam as competências?

Onde estava a pessoa que havia continuado a viver depois daquele episódio?

Blindagem algorítmica

Foi aí que comecei a pensar em uma questão que me parece cada vez mais importante: como podemos dar visibilidade àquilo que realmente compõe a nossa trajetória?

Não estou falando de apagar o passado.

Não estou falando de esconder uma notícia verdadeira.

E muito menos de criar uma história que não aconteceu.

Estou falando de uma coisa muito mais simples: dar evidência também às outras partes da história.

Quando comecei a conversar com aquela pessoa, percebi que havia muito mais para contar. Havia uma trajetória empresarial relevante, experiências, conhecimentos, competências e conquistas que simplesmente não estavam presentes na mesma proporção no ambiente digital.

Em cerca de trinta dias, conseguimos começar a construir uma representação muito mais ampla daquela pessoa.

Não inventamos nada.

Não apagamos nada.

Não mudamos os fatos.

Apenas demos vida digital a uma história que já existia, mas que praticamente não estava registrada.

Essa experiência me fez perceber que existe uma diferença importante entre ter uma boa reputação e ter uma boa reputação devidamente registrada nos ambientes em que as pessoas vão procurá-la.

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Conheça mais sobre o trabalho da Indexe na blindagem reputacional algorítmica. / Foto: Acervo pessoal.

Blindagem reputacional algorítmica: o trabalho da Indexe

Foi dessa reflexão que comecei a desenvolver a ideia de Blindagem Reputacional Algorítmica.

Hoje, na Indexe, trabalhamos com essa perspectiva para pessoas que, muitas vezes, não têm nenhum grande problema reputacional. São C-levels, empresários, executivos, professores, pesquisadores e profissionais que simplesmente perceberam que existe uma diferença entre aquilo que construíram ao longo da vida e aquilo que aparece quando alguém pesquisa seus nomes.

Às vezes, o problema é um homônimo.

Às vezes, é uma notícia antiga.

Às vezes, é uma informação desatualizada.

Às vezes, é simplesmente a ausência de informação.

E essa última talvez seja a situação mais comum.

Você fez muita coisa, mas não registrou.

Publicou pouco.

Não possui um site pessoal.

Não transformou sua experiência em conteúdo.

Não conectou sua trajetória profissional às empresas pelas quais passou.

Não registrou suas pesquisas.

Não deu visibilidade às suas conquistas.

E então chega o dia em que alguém pesquisa seu nome antes de uma reunião, uma contratação, uma parceria ou uma oportunidade.

E o algoritmo precisa responder:

“Quem é essa pessoa?”

Se você não ajudou a construir essa resposta, alguém — ou alguma coisa — vai construí-la a partir do que encontrar.

É por isso que, para mim, blindagem reputacional algorítmica não significa controlar o que a internet diz sobre você.

Significa construir uma presença digital suficientemente consistente para que a internet tenha mais elementos legítimos para dizer quem você é.

E talvez essa seja uma das tarefas mais importantes da reputação profissional nos próximos anos.

Porque, no fim das contas, existe uma diferença enorme entre ter uma história e ter uma história que pode ser encontrada.

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Emilio Alves DON

Emilio Alves DON é professor universitário, pesquisador e empreendedor dedicado a compreender como a Inteligência Artificial e os algoritmos estão transformando a sociedade, os negócios e a formação das próximas gerações.

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